Eu sou princesa Sem vestido de baile, Sem madrinha, Sem escadarias para descer... Sou moça sem tranças, Sem sorriso, À janela de um castelo Em chamas. Sou noiva encantada Sem beijos, Sem sapato, Sem príncipe, Sem sapo... Sou camponesa adormecida, Sem flores, Sem sonhos, A branca aldeã Sem espelho, Sem maçã... Sou metade infeliz, Metade triste. Metade amor, Metade absurdo. Porque o que não existe Sou eu E está em tudo!
Sentindo as unhas da solidão
Olha a janela e não vê nada de novo
A não ser alguns pingos de chuva
Que, despretenciosos,
Formam lágrimas hesitantes na vidraça.
A espera é uma mão gigante que te cala.
Sem assumir postura alguma,
Permanece vigiando como se tentasse descobrir
Alguma demonstração de sim no não.
Sua covardia lhe deu direito a esse medo
E agora o que você fita, sem relógio,
È o desconhecido, é o desassossego.
A saudade tingiu de cinza seus grandes olhos
E como se fosse uma lenta gestação
Você abriga a amargura delirante.
Seu sonho eterno continua oculto.
Seus gestos não traduzem nada.
A lucidez que era incontestável
Agora é uma amiga distante.
Sua boca inquieta nada diz.
Você ouve vozes.
Como se fosse um gigantesco coral,
Você ouve.
Olha a janela tentando ver no mundo
O essencial oculto em seu interior.
Comprometida com o impasse,
Sua maior ambição é cultivar seu lamento mudo,
Seus desenganos disfarçados.
A grave psicose não te adormece.
Dói mas não sofre
Porque você não é mais a mesma.
Está agora alheia aos resultados.
Seu sentimento já não é réu primário,
Já pecou sem remorso...
Você, emocionalmente vazia,
Reduz a aceleração da rua,
Das pessoas, das coisas.
Quer, da janela,
Espalhar seu desequilíbrio pelo mundo.
O silêncio não é mais desprezo
E sim amor eterno.
Amor maior que o vazio,
Amor que regenera os maus.
Prova o beijo insosso
Da vidraça fria...