| VERBO |
15Ago2008 13:40:15 |
Eu quero um verbo completo.
Com todas as pessoas de mim.
Seus tempos, seus modos,
Seus gestos mais que perfeitos.
Quero viver no infinitivo
Um amor indicativo
Que encha o mundo de complementos,
Que se sujeite aos meus predicados.
Mas que seja intransitivo,
Isto é preciso,
Irregular como a palavra,
Como a concordância
Do imperfeito.
Eu o quero adjunto,
Ato, fenômeno,
Para que eu possa
Presentear o futuro
Com as terminações do passado
E com você
Conjugar a vida!
Edi
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| De como buscar |
15Ago2008 13:32:59 |
Se só buscas o que a ti faz falta
Quanto egoísmo em amar!
Antes, que busques o revés,
O placar adverso,
O refúgio não seguro,
A vida abreviada.
Que busques o mar revolto,
A geleira,
O medo de ir
E o medo de ficar.
Que busques ruídos de cigarras,
Nunca clave de fá.
Que busques garimpos,
Não diamantes.
Que não busques lábios,
Mas labirintos.
Que busques com fria persistência
Ao que de fato mereces
E eis que, oh! glória,
Desenganadas serão tuas preces.
Edi
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| Atrás do muro |
15Ago2008 13:20:43 |
Presa em teu abraço
Fecho os olhos e vejo
O que há atrás do muro:
Uma escada para o medo,
Uma queda acentuada
Se eu, com roupa de domingo,
Me arriscar, no silêncio branco,
A buscar outro endereço.
Que destino ignorado
Me fará o avesso do que eu era?
Ah! Se eu conseguisse arriscar o salto!
Ah! Se eu pudesse transpor as muralhas
De minha natureza morta!
Abriria os olhos
E não veria profundezas.
Veria estradas de terra,
Dunas brancas,
Meus pés descalços,
Meus cabelos loiros nas mãos do vento,
E um mar de amor
Atrás do muro...
Edi
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| Amor assassino |
10Jul2008 21:05:14 |

Me matas hoje com tua ausência
E até com beijos me mataste um dia.
Em teus atos sustentas esse amor assassino,
Vil abraço, apertado e impune.
Me matas porque é só o que sabes:
Retirar-me o sopro da fria vida
Que só me é dado ao ouvir teu nome,
Porque o resto é sepulcral silêncio.
Me matas em alma e corpo,
E eu sempre retorno,
Aos pedaços do inferno,
Para esperar que me mates de novo.
Edi
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| À Rosa, minha mãe |
10Jul2008 20:57:33 |
Singular em qualquer gesto,
Divina e soberana
És inabalável,
Mesmo em corpo carnal e limitado.
Ofereces a ingratos o teu beijo doce,
Ocultando freqüentemente o gosto amargo
Dos desapontamentos que carregas.
Teu sofrimento secreto
É companheiro em noites insones,
Mas não pedes a Deus fardos mais leves.
Vigias em oração por filhos amados
Para nada em troca receber.
És mãe de corajosa esperança
Mesmo quando nada mais resta,
Quando afundam teu barco em rios turbulentos,
Em mares de tamanho assustador.
Esqueces teus sonhos tão adiados
Para ser bálsamo milagroso
A uma dor que não é tua
Mas que te fere com violência.
Para corrigir filhos desajustados
Tu dizes que farás o que nunca vais fazer,
Prometes castigos que nunca empregarás,
Porque em ti só habita o bem e o reconforto,
Não sendo capaz de vingança
Ou de ressentimento.
Com freqüência, vês o amor que espalhas
Convertido e envenenado,
Desprezado em teu próprio lar,
Ainda inacabado.
Nada fazes senão justificar a ingratidão filial
Com argumentos que reservas
Para situações lamentáveis.
És capaz até de punir a ti mesma
Para preservar imprudentes filhos.
Fizeste, mãe, do teu mundo,
Um sofrer que é sem fim,
Porque tomas para ti culpas e dores
Que só confessas em oração.
És o significado absoluto da vida,
A identidade perfeita do amor.
O pranto santo que te molha a face,
Qual chuva quente em terreno frágil,
É divino amor que em ti transborda.
Alegra, mãe, teu coração profundo.
Reconforta teu rosto triste,
Porque Deus soletra teu nome na amplidão
E redecora o paraíso
De amor, triunfo e glória,
Para ti, mãe adorada.
E prepara um vento doce, terno,
Que virá descansar teu corpo...
Para ti, Rosa, Rosinha, mãe de mim e de meus filhos, e dos filhos que eles hão de ter, escrevi isso há tempos, mas é moderno, porque você, mãe, é só o que de verdadeiro existe em mim. E o meu amor, em umidade escrito, de lágrimas molhado, nunca haverá de encontrar palavra alguma que aos outros possa significar você.
Amo-te mãe, e é só o que me basta!
Não me chores, mãe!
Ainda vivo, por ti, linda flor, que os outros chamam Rosa, e eu chamo... Amor!
Edi
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| Soneto ao meu amor |
10Jul2008 02:24:54 |

Pode o adeus dizer não mil vezes
E o olhar carente enxergar vazio,
Ainda assim a afeição de meses
Não morre mar, como morre um rio.
Um amor real, se merece o nome,
Cresce intacto enquanto se consome
E invejando os fortes, resiste.
Pode vitimar-se por vil traição,
Agonizar num lamaçal de dores,
Ainda assim traduzirá perdão
E pagará espinhos com flores.
Um amor real não se finda triste,
Nunca abandona seu nome à sorte.
Como o mar a si bastará, até a morte.
Edi
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| CORPOS |
10Jul2008 02:18:13 |

Um olhar é o que me basta
Para que sinta suas mãos viris
A percorrer meus caminhos tão íntimos,
Sem pressa, como se não me soubessem
A meio passo do torpor...
Posso sentir romper-se
O contato com o discernimento,
Enquanto os corpos, afinados,
Perdem a dimensão de si mesmos e,
Bárbaros, ávidos, indóceis,
Consumam a ganância indiscreta,
Faminta, despudorada.
As bocas a si devoram,
Num suplício frenético
Ao qual não podemos pôr fim.
Ausentes de nós, um no outro,
Movidos por estremecimentos
De uma dor ao avesso,
Sussurramos, sem escrúpulos,
Sons confusos de um prazer latejante
Que é incapaz de suportar o próprio nome...
Edi
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